Ai que noite, ai que dia, ai que vida. Que vontade de comer o mundo com boca de paixão, ver e ser vista, desejar e ser desejada. Deixar que o cheiro do dia me penetre: comida no forno, maresia masculina, carambola eu também quero carambolar. Deixar que o líquido espesso da noite morna escorra pelo meu peito: óleo de amêndoas, rosa branca e jasmim.
Porque o mundo é assim, esse noite-e-dia. Mas hoje foi noite, essa noite morna com líquido espesso, e a maresia masculina apareceu de novo, porque o mar do Rio Vermelho me chamou. Sempre me chama de noite, esse sedutor, essa sereia que canta e enfeitiça, essa bruxa. Por que sempre à noite no Rio Vermelho, hein? É que o mar hoje era um ímã, prateado como a lua e como os colares de Yemanjá. A mesma lua a furar nosso zinco, o mesmo mar a furar nosso zênite, uma esfera celeste (e prateada também) que cresce até ser o mundo. Se o amor fosse uma forma geométrica, seria uma esfera? E se fosse uma parte do corpo, seria a pele? Nem sabia que a palavra que faltava era pele, e talvez nem seja, porque talvez nem exista essa palavra que falta. Mas se tiver que ser palavra é pele, é tato sem tabus, é tatu.
Pensou que sentir cheiro de canela no ar já era demais, porque se o amor fosse um cheiro, seria canela, e não podia ser que o amor viesse assim tão depressa a entrar no seu corpo pelo nariz. Quando chegou em casa quis mais canela, procurou e não encontrou, porque a canela teria que ser líquida, pra escorrer, alimentar, hidratar e exalar na pele que reveste o meu corpo, no tapete que me veste, que me embeleza... e pensa na pele surgindo de novo, como palavra e necessidade (do desejo). Desejo daquela voz – a voz masculina que me excita. Me chama, me convida, me oferece também uma pele macia e toda negra (ou branquinha de pintinhas negras), feita de água doce, como almofada de esponja e de carne transbordando a chuva que cai do céu. Me mostra que a revolução é pra já, que tarda mas não falha, é dolor en memoria a traer rebelión, é tambor. É urgente. Me inquieta, mas me sinto em paz. Que paz é essa, meu Deus? De onde vem? Falar em paz é falar dele, desse Deus que vive em mim e em tudo, tanto que te busco, e te encontro, graças a Deus te encontro, é só isso que posso querer: que eu saiba me perder pra me encontrar.
Faz dias que sinto aquela contração involuntária que geralmente vem no olho, sabe? A sinto entre os seios, um pouco mais pra baixo, na boca do estômago. Ela chega bem de mansinho, devagarzinho de noite, parece uma rã pulando dentro de mim, tentando sair do peito-caixinha- fechada em que entrou por conta própria, por vontade. Mas agora quer sair. Quer ser rã, Frida, tatu. Quer ser livre. Às vezes se confunde com o pulsar do coração, mas não é ele não, é outra coisa, o que é? O tal do plexo solar? Essas palavras: coração, amor, desejo, pele, saudade... O que são elas? São elas que pulsam na boca do meu estômago, são elas a rã agitada dentro de mim, são elas as palavras que não devem ser ditas, que não faltavam em lugar algum, que calam para ser big bang de existir. Lembrar do big bang é o começo de tudo, o início que sou e somos, o amor e o sexo em iniciação, penetrando um corpo feito de álcool e sândalo. O big bang é o orgasmo do mundo, é a expansão de tudo o que pulsa e vive e ama e se movimenta; é o rio desaguando no mar, sou eu virando Deus. O movimento agora é seu, meu amor. Não sou só eu quem digo, é tudo: os búzios, aquela colega de trabalho, a intuição, a vontade de ver o mar. Me entregar a você é abdicar de quê? É armadilha? É atalho? É rua sem saída? É caminho? Me entregar. Pode ser o verbo que faltava, pode ser a palavra misteriosa que não deve ser dita, mas merece ser vivida: entrega.
Está em casa: C-A-S-A, morada, lar, hogar, lareira. Então quer dizer que a casa também é fogo, assim como a noite na rua, o desejo, a sedução, as chamas que ocupam o vazio entre o eu e o outro quando ele se aproxima sem saber até onde pode se aproximar, a fogueira. Então quer dizer que também é fogo, porque o fogo também é pai, proteção, coração que é feito das lavas do centro da terra: em ebulição através de uma calma milenar universal. Então o fogo também é calma, paciência, tranquilidade em se aceitar como água fervendo na panela do mundo. O meu coração é fogo e é água, é a luz que surge no meio da tempestade: é raio.
Por isso acho que quando falo desse dom de seduzir o mundo é só uma forma de me puxar pra superfície, impedir que eu me afogue nessa lama-areia-movediça-água-terra que é a sedução (e o amor). Não deixa de ser um tabu ou um medo de morrer-meafogar-meentregar. Não falo pra você, nego, com dedo na cara de repressão. Falo pra mim mesma.
Aí ela liga o rádio antes de dormir, talvez como uma forma de se sentir menos sozinha. O rádio de repente a conecta com muitas pessoas, todas desconhecidas e inacessíveis, mas irremediável e inevitavelmente conectadas a ela. De repente se conforta por saber que agora ela é o locutor, o taxista que trabalha de madrugada, a dona de casa com insônia, a artista no auge da inspiração, o bêbado solitário no bar da esquina. Às vezes coloca o rádio tão baixinho que nem escuta a música que toca, nem entende o que o homem do outro lado fala. Mas aplaca a sua solidão. Diminui um pouquinho a sua vontade de estar abraçada com aquele homem, seu homem; a paz fora do seu corpo (mas fora até onde?), a paz que a penetra, a possui, a obriga a se entregar, a confiar, a se desnudar por completo para ser sem fronteira alguma; somente ser.
Porque o mundo é assim, esse noite-e-dia. Mas hoje foi noite, essa noite morna com líquido espesso, e a maresia masculina apareceu de novo, porque o mar do Rio Vermelho me chamou. Sempre me chama de noite, esse sedutor, essa sereia que canta e enfeitiça, essa bruxa. Por que sempre à noite no Rio Vermelho, hein? É que o mar hoje era um ímã, prateado como a lua e como os colares de Yemanjá. A mesma lua a furar nosso zinco, o mesmo mar a furar nosso zênite, uma esfera celeste (e prateada também) que cresce até ser o mundo. Se o amor fosse uma forma geométrica, seria uma esfera? E se fosse uma parte do corpo, seria a pele? Nem sabia que a palavra que faltava era pele, e talvez nem seja, porque talvez nem exista essa palavra que falta. Mas se tiver que ser palavra é pele, é tato sem tabus, é tatu.
Pensou que sentir cheiro de canela no ar já era demais, porque se o amor fosse um cheiro, seria canela, e não podia ser que o amor viesse assim tão depressa a entrar no seu corpo pelo nariz. Quando chegou em casa quis mais canela, procurou e não encontrou, porque a canela teria que ser líquida, pra escorrer, alimentar, hidratar e exalar na pele que reveste o meu corpo, no tapete que me veste, que me embeleza... e pensa na pele surgindo de novo, como palavra e necessidade (do desejo). Desejo daquela voz – a voz masculina que me excita. Me chama, me convida, me oferece também uma pele macia e toda negra (ou branquinha de pintinhas negras), feita de água doce, como almofada de esponja e de carne transbordando a chuva que cai do céu. Me mostra que a revolução é pra já, que tarda mas não falha, é dolor en memoria a traer rebelión, é tambor. É urgente. Me inquieta, mas me sinto em paz. Que paz é essa, meu Deus? De onde vem? Falar em paz é falar dele, desse Deus que vive em mim e em tudo, tanto que te busco, e te encontro, graças a Deus te encontro, é só isso que posso querer: que eu saiba me perder pra me encontrar.
Faz dias que sinto aquela contração involuntária que geralmente vem no olho, sabe? A sinto entre os seios, um pouco mais pra baixo, na boca do estômago. Ela chega bem de mansinho, devagarzinho de noite, parece uma rã pulando dentro de mim, tentando sair do peito-caixinha- fechada em que entrou por conta própria, por vontade. Mas agora quer sair. Quer ser rã, Frida, tatu. Quer ser livre. Às vezes se confunde com o pulsar do coração, mas não é ele não, é outra coisa, o que é? O tal do plexo solar? Essas palavras: coração, amor, desejo, pele, saudade... O que são elas? São elas que pulsam na boca do meu estômago, são elas a rã agitada dentro de mim, são elas as palavras que não devem ser ditas, que não faltavam em lugar algum, que calam para ser big bang de existir. Lembrar do big bang é o começo de tudo, o início que sou e somos, o amor e o sexo em iniciação, penetrando um corpo feito de álcool e sândalo. O big bang é o orgasmo do mundo, é a expansão de tudo o que pulsa e vive e ama e se movimenta; é o rio desaguando no mar, sou eu virando Deus. O movimento agora é seu, meu amor. Não sou só eu quem digo, é tudo: os búzios, aquela colega de trabalho, a intuição, a vontade de ver o mar. Me entregar a você é abdicar de quê? É armadilha? É atalho? É rua sem saída? É caminho? Me entregar. Pode ser o verbo que faltava, pode ser a palavra misteriosa que não deve ser dita, mas merece ser vivida: entrega.
Está em casa: C-A-S-A, morada, lar, hogar, lareira. Então quer dizer que a casa também é fogo, assim como a noite na rua, o desejo, a sedução, as chamas que ocupam o vazio entre o eu e o outro quando ele se aproxima sem saber até onde pode se aproximar, a fogueira. Então quer dizer que também é fogo, porque o fogo também é pai, proteção, coração que é feito das lavas do centro da terra: em ebulição através de uma calma milenar universal. Então o fogo também é calma, paciência, tranquilidade em se aceitar como água fervendo na panela do mundo. O meu coração é fogo e é água, é a luz que surge no meio da tempestade: é raio.
Por isso acho que quando falo desse dom de seduzir o mundo é só uma forma de me puxar pra superfície, impedir que eu me afogue nessa lama-areia-movediça-água-terra que é a sedução (e o amor). Não deixa de ser um tabu ou um medo de morrer-meafogar-meentregar. Não falo pra você, nego, com dedo na cara de repressão. Falo pra mim mesma.
Aí ela liga o rádio antes de dormir, talvez como uma forma de se sentir menos sozinha. O rádio de repente a conecta com muitas pessoas, todas desconhecidas e inacessíveis, mas irremediável e inevitavelmente conectadas a ela. De repente se conforta por saber que agora ela é o locutor, o taxista que trabalha de madrugada, a dona de casa com insônia, a artista no auge da inspiração, o bêbado solitário no bar da esquina. Às vezes coloca o rádio tão baixinho que nem escuta a música que toca, nem entende o que o homem do outro lado fala. Mas aplaca a sua solidão. Diminui um pouquinho a sua vontade de estar abraçada com aquele homem, seu homem; a paz fora do seu corpo (mas fora até onde?), a paz que a penetra, a possui, a obriga a se entregar, a confiar, a se desnudar por completo para ser sem fronteira alguma; somente ser.
o círculo do amor, a estrela da esperança. A canela expande as passagens do corpo. e todas as passagens desaguam no mar. um cheiro, lila! saudades!
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