quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

24 de novembro de 2011

Ai que noite, ai que dia, ai que vida. Que vontade de comer o mundo com boca de paixão, ver e ser vista, desejar e ser desejada. Deixar que o cheiro do dia me penetre: comida no forno, maresia masculina, carambola eu também quero carambolar. Deixar que o líquido espesso da noite morna escorra pelo meu peito: óleo de amêndoas, rosa branca e jasmim.

Porque o mundo é assim, esse noite-e-dia. Mas hoje foi noite, essa noite morna com líquido espesso, e a maresia masculina apareceu de novo, porque o mar do Rio Vermelho me chamou. Sempre me chama de noite, esse sedutor, essa sereia que canta e enfeitiça, essa bruxa. Por que sempre à noite no Rio Vermelho, hein? É que o mar hoje era um ímã, prateado como a lua e como os colares de Yemanjá. A mesma lua a furar nosso zinco, o mesmo mar a furar nosso zênite, uma esfera celeste (e prateada também) que cresce até ser o mundo. Se o amor fosse uma forma geométrica, seria uma esfera? E se fosse uma parte do corpo, seria a pele? Nem sabia que a palavra que faltava era pele, e talvez nem seja, porque talvez nem exista essa palavra que falta. Mas se tiver que ser palavra é pele, é tato sem tabus, é tatu.

Pensou que sentir cheiro de canela no ar já era demais, porque se o amor fosse um cheiro, seria canela, e não podia ser que o amor viesse assim tão depressa a entrar no seu corpo pelo nariz. Quando chegou em casa quis mais canela, procurou e não encontrou, porque a canela teria que ser líquida, pra escorrer, alimentar, hidratar e exalar na pele que reveste o meu corpo, no tapete que me veste, que me embeleza... e pensa na pele surgindo de novo, como palavra e necessidade (do desejo). Desejo daquela voz – a voz masculina que me excita. Me chama, me convida, me oferece também uma pele macia e toda negra (ou branquinha de pintinhas negras), feita de água doce, como almofada de esponja e de carne transbordando a chuva que cai do céu. Me mostra que a revolução é pra já, que tarda mas não falha, é dolor en memoria a traer rebelión, é tambor. É urgente. Me inquieta, mas me sinto em paz. Que paz é essa, meu Deus? De onde vem? Falar em paz é falar dele, desse Deus que vive em mim e em tudo, tanto que te busco, e te encontro, graças a Deus te encontro, é só isso que posso querer: que eu saiba me perder pra me encontrar.

Faz dias que sinto aquela contração involuntária que geralmente vem no olho, sabe? A sinto entre os seios, um pouco mais pra baixo, na boca do estômago. Ela chega bem de mansinho, devagarzinho de noite, parece uma rã pulando dentro de mim, tentando sair do peito-caixinha- fechada em que entrou por conta própria, por vontade. Mas agora quer sair. Quer ser rã, Frida, tatu. Quer ser livre. Às vezes se confunde com o pulsar do coração, mas não é ele não, é outra coisa, o que é? O tal do plexo solar? Essas palavras: coração, amor, desejo, pele, saudade... O que são elas? São elas que pulsam na boca do meu estômago, são elas a rã agitada dentro de mim, são elas as palavras que não devem ser ditas, que não faltavam em lugar algum, que calam para ser big bang de existir. Lembrar do big bang é o começo de tudo, o início que sou e somos, o amor e o sexo em iniciação, penetrando um corpo feito de álcool e sândalo. O big bang é o orgasmo do mundo, é a expansão de tudo o que pulsa e vive e ama e se movimenta; é o rio desaguando no mar, sou eu virando Deus. O movimento agora é seu, meu amor. Não sou só eu quem digo, é tudo: os búzios, aquela colega de trabalho, a intuição, a vontade de ver o mar. Me entregar a você é abdicar de quê? É armadilha? É atalho? É rua sem saída? É caminho? Me entregar. Pode ser o verbo que faltava, pode ser a palavra misteriosa que não deve ser dita, mas merece ser vivida: entrega.

Está em casa: C-A-S-A, morada, lar, hogar, lareira. Então quer dizer que a casa também é fogo, assim como a noite na rua, o desejo, a sedução, as chamas que ocupam o vazio entre o eu e o outro quando ele se aproxima sem saber até onde pode se aproximar, a fogueira. Então quer dizer que também é fogo, porque o fogo também é pai, proteção, coração que é feito das lavas do centro da terra: em ebulição através de uma calma milenar universal. Então o fogo também é calma, paciência, tranquilidade em se aceitar como água fervendo na panela do mundo. O meu coração é fogo e é água, é a luz que surge no meio da tempestade: é raio.

Por isso acho que quando falo desse dom de seduzir o mundo é só uma forma de me puxar pra superfície, impedir que eu me afogue nessa lama-areia-movediça-água-terra que é a sedução (e o amor). Não deixa de ser um tabu ou um medo de morrer-meafogar-meentregar. Não falo pra você, nego, com dedo na cara de repressão. Falo pra mim mesma.

Aí ela liga o rádio antes de dormir, talvez como uma forma de se sentir menos sozinha. O rádio de repente a conecta com muitas pessoas, todas desconhecidas e inacessíveis, mas irremediável e inevitavelmente conectadas a ela. De repente se conforta por saber que agora ela é o locutor, o taxista que trabalha de madrugada, a dona de casa com insônia, a artista no auge da inspiração, o bêbado solitário no bar da esquina. Às vezes coloca o rádio tão baixinho que nem escuta a música que toca, nem entende o que o homem do outro lado fala. Mas aplaca a sua solidão. Diminui um pouquinho a sua vontade de estar abraçada com aquele homem, seu homem; a paz fora do seu corpo (mas fora até onde?), a paz que a penetra, a possui, a obriga a se entregar, a confiar, a se desnudar por completo para ser sem fronteira alguma; somente ser.

19 de novembro de 2011

Embriagada de sol e mar, com a pele ardente de sensibilidade sutil, desejava o seu toque (e só o seu). Deitada na minha cama em meu quarto, queria suas mãos acariciando minha pele, essa fronteira que existe entre eu e você, entre meu interior e o mundo. Desejava só a sua pele forte, fria, calma... Para ser o equilíbrio do contato: a chama e a gota d’água. Essa energia masculina que acende e tranquiliza  

Mas então fui buscar essa água no vento da noite, em outros corpos, em outras peles, em suores, em dança. Dançava tanto que derretia, todos derretíamos, e eu via pedaços nossos pelo chão e me preparava para o próximo estado: ser vapor. Pairar no ar, ser levada pelo vento, transformar-me finalmente em água em estado gasoso. E o desejo, de onde vem? Ah, esse desejo contido que nunca se satisfaz. Vai se satisfazer um dia? O que esperar do outro, esse templo misterioso, fechado em si mesmo? Conseguirei ser eu no outro? Ou estarei sempre assim, nadando e morrendo nas praias do outro, porque ser livre, bonita e simples é pra poucos, pra ninguém, pra mim? Só isso: olhar, ver brilho, querer estar mais perto... Há algo de complicado nisso? Há esse mistério impenetrável dentro de cada um de nós. E se a gente deixasse de ser cada um e se permitisse ser todo mundo? Vai chegar o momento de transformar-nos em ar? Não posso esperar; será como 'rising', será como silenciar e esquecer daqueles limites e ser plenamente livre e simples e transparente. 

Queria ser assim agora, mas por que tenho que estar aqui, na frente do computador, no meu quarto, fresquinha, de banho tomado, escrevendo para mim? Por que logo agora, tão cheia de desejo contido, tenho que ser eu e só eu, sozinha no meu quarto, como tantas vezes, escutando Lhasa que só faz crescer meu desejo, e por que tenho que ser só? Agora como antes, como sempre. Será uma prova pela qual tenho que passar? Será essa coisa do destino? Será o complicado de ser eu e de que do outro lado da fronteira estão as outras pessoas, que não são eu e não necessariamente querem o mesmo que eu, e como aceitar isso? Como admitir que o que quero não será necessariamente o que desejo? Como ceder diante da pressão de ser um só e não poder ser outros? É só criar coragem, perguntar o nome, pedir o telefone? É uma oportunidade que a gente deixa passar, mas com o conforto do “amanhã”. Eu lá quero saber de amanhã, de ano novo, de outro lugar que não seja o aqui e o agora! Eu quero é agora, e às vezes quero mesmo é pra ontem, e essa ansiedade me mata e eu tenho que controlá-la. 

“Equilíbrio” pode até ser essa palavra que já saiu de moda, não deve ser usada, talvez exista mesmo um novo movimento que rejeita o velho. Mas é o que busco, e quando não busco tanto, quando é mais a busca da liberdade plena porque naquele momento é ela que o meu corpo tá pedindo, aquele mesmo corpo que dança, sua, sente, quer também sentir outros corpos, quantos sejam, sem medo, sem pudor, sem vergonha, sem medo! Escutou? Sem medo. Dá vontade de gritar: sem medo! Quanto desejo, e penso “que desperdício”, e depois me pergunto se desperdiça mesmo. 

Quanto desejo por tudo o que é vivo e que sente desejo também, assim como eu. A energia masculina, esse mistério ancestral, esse ser homem que nunca serei e nunca saberei, nunca conhecerei, e isso é o mais incrível em olhar um homem, tão forte em seu “ser árvore-homem”. Vontade de me aproximar! Até onde? Seja aquele negro cheio de arte, aquele índio percussionista, aquele amor exalando o rock leve que penetra em cada poro da minha pele. A energia feminina, essa semelhança cúmplice, essa descoberta tão recente e libertadora, de se ver na outra completa e intensamente. Mas agora não é nada disso, sou só eu no meu escrever, não digo pensar porque nem penso, só escrevo o que sai por todo o meu corpo e eu consigo recolher, juntar, formar palavra, frase, digitar. E o espanhol me entra como música, como história que não vai embora, por que não? Perguntar demais é o meu mal. Vou dormir. Aliás, chove... 

E como não falar dessa chuva depois de tanto calor. Será para acalmar? Mas eu quero acalmar? Se não quisesse, não teria feito um chá de camomila. Camomila, não outro. O que eu estou buscando afinal? Sei que buscar no outro é sempre uma armadilha, é sempre um terminar sozinho, uma sutil decepção, porque ainda não aprendi a buscar no outro sem esperar, sem controlar, mas o outro é incontrolável, nós somos incontroláveis, controlar é uma energia desperdiçada. Como aquele último suspiro antes de se entregar, desistir, abrir os braços e mergulhar no abismo, e ser condor, e ser aquele homem que pulou no rio aquele dia e foi condor, e eu quis ser ele e condor também. Mas por que eu, sabendo que buscar no outro é armadilha, continuo buscando o outro, a resposta tá no outro, que outro? Por que continuo buscando no outro aquilo que não consigo encontrar em lugar algum? Por que continuar buscando? Será o lance da utopia, que serve para caminhar? 

Existe algo maior que tudo isso, e no final das contas é muito menor que tudo, que é o desejo, e que de vez em quando lateja, me lembra que existe e está aqui dentro, me agarra o sexo, me pede toque no peito, me arde imensamente num fogo eterno que não consome nada, só o meu juízo.